Conhecimento Patológico

Fernando Nogueira Dias

 

OS LIMITES SOCIAIS

O objectivo deste artigo é o de demonstrar que a manipulação das palavras, e por consequência a manipulação do conhecimento, quando atinge os limites daquilo que as sociedades toleram, pelos seus valores, pelos seus costumes, pelas suas normas de conduta ou pelas expectativas que têm da vida em sociedade, corre-se o risco de criar rupturas e sofrimento nas pessoas e nos grupos. É o que se passa de um modo geral com os grupos que vulgarmente são tomados como seitas.

É certo que nem todos os grupos rotulados como seitas têm comportamento tal, e nem todas as seitas constituem perigo para a sociedade. Mas quando um grupo deste cariz, sociologicamente fechado sobre si próprio, recorre ao recrutamento ilegal, à mentira, à extorsão, aos negócios ilícitos, à pedofilia, à violação sexual, ao crime e à violência, parece não haver dúvida de os podermos rotular como seitas, e de considerarmos que estes grupos pautam as suas vidas em função de sistemas de conhecimento patológicos.

Todavia, o que nos move aqui é o carácter do conhecimento que está em causa neste tipo de grupos. Os grupos são fechados porque estão voltados sobre si mesmos, desligados do mundo e da vida real. Os líderes conduzem os seus adeptos a um corte físico, psicológico e afectivo com o mundo exterior. Até se chegar a este ponto de entropia máxima, é incutido um conjunto de ideias, de um modo geral falsas, por forma a que os aderentes alterem as suas percepções relativamente ao que se passa no interior e no exterior do grupo.

Do nosso ponto de vista, a questão fulcral das seitas são os sistemas de conhecimento que os chefes deste grupos conseguem criar e desenvolver junto dos seus seguidores. O quadro de referências que lhes impõem é de tal forma extremado e rigidificado que a vida interna e externa das comunidades é sugada por um novo olhar, cujas lentes são a vontade cega de tudo fazer para obedecer à autoridade do líder.

Os casos a seguir apresentados demonstram inequivocamente como os sistemas de conhecimento, quando distorcidos em favor do manipulador, conseguem obter dos seguidores tudo o que ele quiser, incluindo as suas próprias vidas. Os casos estudados dizem respeito a Jim Jones, Templo do Povo – Jonestown, Guiana, América do Sul; David Koresh, Davidianos – E.U.A; Shoko Asahara/Aum Verdade Suprema – Tóquio, Japão; Jo Dimambro, Ordem do Templo Solar – em diferentes países (1).

O caso do Templo do Povo resultou num suicídio colectivo. Quanto aos Davidianos, morreram dezenas de seguidores entrincheirados contra a polícia. O líder do Aum Verdade Suprema mandou espalhar um gás mortífero, originando a morte de pessoas e o ferimento de outras. Relativamente à Ordem do Templo Solar, o desfecho foi o suicídio colectivo de fiéis, em diferentes pontos do globo.

A METODOLOGIA

A metodologia de análise destes casos consistiu em recolher o material discursivo do programa de televisão, considerado mais relevante, do ponto de vista do observador. Seguidamente, procedeu-se à categorização, tendo por base o raciocínio sociológico e os conceitos fundamentais da Teoria Geral dos Sistemas. Posteriormente, procedeu-se à análise e interpretação dos dados obtidos. Feito isto, fez-se a apresentação dos resultados e, finalmente, foram tiradas as respectivas conclusões.

A ANÁLISE DOS RESULTADOS

Numa análise sociológica, entre outras preocupações do investigador, a detecção de padrões comportamentais é fundamental para se perceber a dimensão social dos processos em estudo. As categorias construídas aplicaram-se a todos os sistemas analisados (as seitas), embora nem todos os itens se verifiquem em todos eles.

Qualquer sistema vivo e complexo procura atingir as suas finalidades através das relações que mantém com o meio em que opera, mediante a conjugação das diferentes partes que o compõem e para as quais se organiza.

As diferentes partes, ou subsistemas, para manterem a coesão interna necessitam de interagir umas com as outras e receber do meio externo os fluxos de informação de que necessitam para que o sistema se renove interiormente e se adapte às influências do meio envolvente.

Como há nos sistemas sociais um grau de elevada complexidade, o controlo das entradas e das saídas de informação é fundamental para a manutenção do seu equilíbrio e preservação da sua identidade. Quando um sistema abre excessivamente as suas entradas à informação do meio exterior corre o risco de pôr em causa a sua estrutura interna e descaracterizar-se. Mas, quando o sistema se fecha à entrada da informação que vem do meio exterior corre igualmente o risco de mergulhar num processo de entropia, o que o leva a perder igualmente a sua identidade, face à desorganização e ao caos provocado pela falta de informação.

O excessivo controlo exercido sobre o sistema, com o receio de que este se deixe influenciar e perder a sua identidade leva-o a uma distanciação e a um corte com o mundo exterior. Os sistemas em análise têm todas as características que acabámos de referir. O excessivo controlo das entradas e das saídas nestes casos, essencialmente após a entrada dos aderentes nas comunidades, conduziu-os a um corte total com a realidade do mundo exterior.

O fechamento destes sistemas de ideias, que progressivamente conduziu os indivíduos à perca da realidade com o mundo envolvente, provocou nos líderes destes grupos o sentimento de omnipotência e um desregramento comportamental, face à comunidade de seguidores e face ao sistema normativo da sociedade mais vasta.

Intencionalmente ou não, a condução de grupos de pessoas ao isolamento social e a um estado de escravidão física e mental, são indicadores claros de estados de desequilíbrio pessoal e grupal. Se as pessoas podem tornar-se patológicas os grupos também.

Criar estruturas, ter objectivos e finalidades a alcançar, mesmo as de salvar a Humanidade ou alcançar a verdade suprema, usar métodos de recrutamento para angariar novos aderentes, distribuir bens físicos ou espirituais, criar padrões de relacionamento que exaltam as qualidades dos seus membros, obter formas de o sistema se manter financeiramente, ter um líder como referente e controlar o comportamento do sistema não se nos afigura que fuja àquilo que caracteriza qualquer grupo, organização ou comunidade.

A questão que se levanta é a de saber até que ponto é que as características destes tipos de sistemas e o seu funcionamento, quando ultrapassados os limites da tolerância social e cultural, podem ou devem ser aceites. É uma questão de ordem moral, que só cada sociedade pode dizer até onde quer ir na tolerância aos comportamentos que considera desviantes a si mesma.

Embora corramos o risco de parecer insensíveis, a verdade é que não podemos esquecer que a questão do desvio comportamental foi em todos os tempos e em todos os lugares uma questão de comparação e de aferição com a norma em vigor. E mesmo assim, aquilo que pode, ainda hoje, ser considerado desvio para uma sociedade, comunidade ou grupo, não o é para outros.

O horror que presentemente nos atinge pela observação, tomada de conhecimento e de consciência destes processos, só é possível graças aos valores e aos sistemas de conhecimento actuais, que nos fazem ver e sentir as coisas desta forma. E noutros tempos, também foi assim? E noutras sociedade, também assim é?

A relatividade é um factor extremamente importante na análise social, pois tem sido através desta ponderação epistemológica que as Ciências Sociais têm progredido na eliminação do etnocentrismo, da subjectividade do observador, da não absolutização das perspectivas, da moralização dos comportamentos, etc.

Mas a questão fundamental é interrogarmo-nos até que ponto o cientista social pode alhear-se dos valores que atravessam o seu tempo. Não para tomar partido enquanto perito, mas para perceber que à luz dos valores e dos paradigmas que regem o mundo em que vive há processos e comportamentos que podem concorrer para a desagregação pessoal e social dos seres humanos.

Quando a desagregação, a qualquer um destes níveis, causa nos homens sofrimento físico ou psíquico, dor ou infelicidade, contra sua vontade, mesmo que proveniente de um sistema social mais poderoso ou maior na sua dimensão, parece-nos razoável considerar que estas causas se classificam e conduzem a estados de entropia social, ou, noutros moldes, a estados de patologia social.

É certo que poderá dizer-se que ninguém é, à partida, obrigado a seguir estes sistemas de ideias. Mas também é certo que ninguém, sabendo à partida o futuro que o envolvimento com estes movimentos lhes traria, ousaria juntar-se e comungar destes processos anómicos.

Em situação de dificuldades, pessoais, familiares, profissionais, ou outras, os indivíduos juntam-se a um grupo ou a uma teoria religiosa, ou a uma qualquer forma de terapia individual ou grupal, visto que a elas aderem em situação de fragilidade. Mas este tipo de «psicoterapia» tem normalmente um preço elevado a pagar.

A armadilha oculta inicialmente aos adeptos torna-os mais tarde escravos, controlados e sem possibilidade de se livrarem dos grilhões. Eis o truque: «connosco, és o mais forte, connosco terás virtudes que te tornam num homem e mulher supremos».

Os passos de magia, mais ou menos aperfeiçoados, os falsos poderes e os «milagres» fabricados pelo líder e seus ajudantes rapidamente prendem os seguidores, cuja mente e afectos ficam condicionados pelas técnicas apuradas do sistema que os aprisionou.

A destruição das personalidades, da vontade própria e das relações sociais, bem como a mudança de hábitos e de comportamentos, por sedução inicialmente e por coacção posterior, deixam qualquer observador atento à perversidade de tais grupos.

O condicionamento dos sentidos e dos sentimentos, ao serem comandados pelo líder e pelos seus coadjutores, conduzem os seguidores destes movimentos a ignorarem inicialmente, e a não reconhecerem mais tarde, a importância da opinião e dos conselhos dos familiares e dos amigos. É para os seguidores um processo cego, que os prende à vida da do sistema.

Este tipo de sistemas cria um mundo à parte, só para si, convencidos que todos estão mal, menos eles, detentores da verdade suprema. Para isso, dever-se-á servir o líder, ficando a mente e a vontade às suas ordens incondicionalmente.

Após ingressarem nestes movimentos, alguns ficaram na penúria financeira, outros sentiram-se privilegiados por terem relações sexuais com o líder, mesmo na presença forçada do outro parceiro (esposa/esposo), outros, convencidos, ou obrigados pelo desejo supremo do líder, a separarem-se dos maridos, das mulheres e dos filhos. Tudo isto para servir o líder – homem de virtudes supremas.

Como compreender estes processos? Que significado dar-lhes?

EM JEITO DE CONCLUSÃO

O resultado desta análise não é novidade para quem anda atento à informação veiculada nos mass media. A questão é, muitas vezes, um problema de grau, ou então, uma questão de capacidade para desvendar as diversas camadas deste tipo de situações, ficando os indivíduos chocados somente com a superficialidade conhecida das situações.

Este tipo de funcionamento, e de disfuncionamento, dos sistemas verifica-se noutros grupos e noutros movimentos, com lógicas de actuação muito semelhantes, mas sem chegarem a situações extremas como estas, pelo menos na aparência. Não cabe aqui fazer o julgamento moral destes processos. Todavia, do ponto de vista da análise sociológica, podemos salientar que:

Há grupos que se organizam para atingir objectivos e prosseguir finalidades que têm em vista o proveito financeiro próprio e o domínio dos outros. Para isso, recorrem à organização de sociedades que os conduza a esses fins.

Recrutam os adeptos, mediante um conjunto de actividades e de estratégias de sedução. Estando os indivíduos em situação de fragilidade pessoal ou social, fácil lhes é aderirem a um sistema de ideias que oferece o céu e a terra como paraíso. Ao oferecerem, inicialmente, um clima de «amor», de compreensão e de aceitação incondicional, os adeptos sentem a sua auto-estima elevar-se, e daí surgir o sentimento de felicidade e de bem-estar.

Mas o sistema, para além de bem-estar, proporciona também aos seus seguidores um conjunto de ideias, que enquadra a percepção e a interpretação do mundo natural, social e espiritual. Por isso, a «compreensão» provoca nos seguidores a sensação de segurança, porque, afinal, os indivíduos podem, a partir de agora, controlar os fenómenos que antes lhes escapara.

Os adeptos são convidados a entrar na vida comunitária do sistema. Para isso, terão de libertar-se dos seus bens e dinheiro, uma vez que estes constituem empecilhos que perturbam o bem-estar espiritual. O sistema encarregar-se-á de os gerir.

Entrados na comunidade, os seguidores reaprendem a viver, de acordo com as leis impostas pelo incontestado líder. Para todas as situações há uma explicação sábia do líder, mesmo os actos de extorsão, de violação e de violência por parte do sistema. A vida na comunidade passa a ser, para alguns, a partir de determinada altura, um pesadelo, quando disso tomam consciência. Nestas situações, lá estará o líder para ajudar os seguidores a corrigir os seus pontos de vista, resultado das suas fraquezas espirituais. Caso o seguidor se mostre renitente na correcção, os coadjutores do líder encarregar-se-ão de aplicar as sábias correcções impostas por ele, como é o caso de punições físicas e simbólicas.

Quando o contexto se proporciona ou a situação o exige, o líder provoca milagres, que vão do ilusionismo, à farsa e às encenações de milagres entre fiéis, previamente escolhidos para o efeito. Se estes acontecimentos de peso «sobrenatural» não convencem os seguidores rebeldes, há sempre forma de, para além dos castigos que podem levar à morte, uma sentença que abrevia a entrada no além, mais depressa do que o seguidor esperava.

Finalmente, podemos dizer que pessoas com problemas, que lhe causam fragilidades, perante um sistema que oferece o paraíso na terra e um futuro no céu, juntamente com um sistema de conhecimento que lhes dá sentido e segurança, face ao mundo terreno e ao mundo espiritual, com capacidade financeira e bens, para deles se libertarem, a bem do sistema que integraram, tornam-se presas fáceis de um mecanismo de controlo pessoal, que lhes rouba a vontade e a capacidade de pensar por si próprias, ao ponto de cometerem actos que as suas consciências noutras circunstâncias não aprovariam.

Estamos a falar de quê? de sistemas entrópicos - o mesmo é dizer, sistemas de conhecimento patológicos, uma vez que estes grupos perderam a noção da realidade, ficaram com uma perspectiva da vida distorcida, e foi em função dessa distorção, desse conhecimento alienado, que se destruíram a si próprios e aos outros.

 (1) A presente análise foi efectuada com base na gravação do programa Toda a Verdade sobre as Seitas da Morte, apresentado pelo Canal SIC nos dias 14, 21 e 28 de Dezembro de 1998.
 

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