FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DA ACÇÃO HUMANA




Fernando Nogueira Dias




1- O CONHECIMENTO E A COMPREENSÃO DO MUNDO: SENSO COMUM, TEORIAS, MODELOS E PARADIGMAS.

O conhecimento e a compreensão do mundo foi, desde sempre, e ainda hoje é, um dos maiores empreendimentos do homem comum e do cientista. Várias têm sido as propostas dos homens na criação de sistemas de ideias que os ajudem a compreender o que se passa à sua volta e a predizer o que vai passar-se nas suas vidas e no mundo.

A religião, ao longo dos tempos, tem-se imposto como instituição enquadradora da realidade, fornecendo explicações para os fenómenos naturais, humanos e espirituais. A filosofia questiona as propostas da religião, e não só, mas, muitas das vezes, pretende ela mesma substituir-se à religião, nesta função de enquadrar a visão do homem. A ciência, por sua vez, especialmente no século XIX, pretende assumir-se como redentora do homem, na sua errância pela procura da verdade.

No que respeita à religião, a sua actuação tem sido a de fornecer ao homem modelos integradores do mundo e da vida: ora proporcionando explicações para os fenómenos, ora fornecendo antecipações da realidade e dando segurança ao ser humano, face à imprevisibilidade da vida, aqui e no alem. No seu papel de interrogar o mundo e a vida e de os questionar, a filosofia acaba, muitas vezes, por substituir modelos que julga inadequados por outros, nem sempre de forma razoável. A ciência, no seu labor de se desvincular das ideias feitas e das ideologias, cria modelos e teorias para os mesmos efeitos: compreender o mundo e a vida.

Qual, então a diferença entre religião, filosofia e ciência no que se refere ao problema do conhecimento? Não é fácil responder à pergunta, mas podemos, grosseiramente, dizer que a religião dá respostas globais, universais e definitivas sobre o conhecimento, sendo a fonte desse conhecimento de carácter transcendental. A filosofia procura o conhecimento na desconstrução da realidade aparente. E a ciência?

Como nos diz o filósofo Gaston Bachelard, O facto científico é conquistado, construído e verificado. Mas como ? Conquistado sobre os preconceitos, construído pela razão, verificado nos factos. Na mesma sequência, Pierre Bourdieu et al. descreve o processo de conhecimento científico obedecendo a uma hierarquia de actos epistemológicos: ruptura, construção e verificação (ou experimentação).

Deverá, então, a ciência dispensar as ideias (ideologias), para poder constituir-se em ciência? Por certo que não. Não é possível haver conhecimento científico ou conhecimento comum sem sistema de ideias. A diferença é que, em ciência, as ideias devem subjugar-se a procedimentos epistemológicos rigorosos.

Depreende-se disto que, mesmo para compreendermos cientificamente a realidade, necessitamos sempre de paradigmas, de modelos e de teorias. Mas há aqui uma grande diferença relativamente ao senso comum e ao conhecimento religioso ou mítico. É que o conhecimento científico não aspira a ser absoluto nem eterno.

Como assim? O conhecimento científico é sempre provisório, sectorial e resulta de aproximações sucessivas e graduais à realidade. Desta forma, o totalitarismo epistemológico não tem cabimento no conhecimento científico! Pois não. É uma certeza incerta. Ou seja, é a certeza de que não há assim tanta certeza no conhecimento.

Como definir, então, o conhecimento científico e distingui-lo dos outros tipos de conhecimento? Para além das afirmações anteriores, podemos dizer que o conhecimento científico necessita de matrizes (sistemas de ideias) coerentes intrinsecamente e que correspondam o mais aproximadamente possível à realidade que pretendem explicar. Só isto? Não. É necessário que, para além de um objecto de estudo bem delimitado, e de uma matriz de significados coerente, haja um cientista e um método de procedimentos de investigação. Será da articulação rigorosa desta complexidade que resultará o conhecimento científico.

Então, teremos o problema definitivamente resolvido! Não. É necessária permanente vigilância epistemológica sobre as matrizes, os modelos, as teorias, os paradigmas, a definição do objecto de estudo, a postura do cientista, etc.

Vemos, assim, que também a ciência assenta em sistemas de ideias. É verdade. Se quisermos, assenta, para além de tudo, em paradigmas científicos. A propósito, foi o filósofo americano Thomas Khun quem, pela primeira vez, usou em ciência o termo paradigma. Este termo deriva do grego, paradeigma (modelo), para significar exactamente um sistema de ideias, que molda a realidade. Sistema este que orientará a actividade do cientista no tempo e no espaço, facilitando-lhe a definição do seu objecto de estudo, a criação de matrizes, a construção de métodos e de instrumentos. Só isto? Não. Também, e acima de tudo, proporciona um enquadramento para a interpretação dos resultados científicos.

Se assim é, podemos então dizer que o conhecimento científico necessita de óculos para ver a realidade! É verdade. Os paradigmas funcionam como óculos que colocamos para ver a realidade; sem eles a realidade não nos faz sentido! Bom, se assim é, então a realidade muda, de acordo com os óculos. Exactamente! Por isso é que há diferentes teorias sobre a mesma realidade, mesmo as científicas!

Podemos agora perceber porque vamos abordar a fenomenologia e o existencialismo, e mais a frente outras correntes, tal como a Sistémica, como quadros teóricos explicativos da acção humana, quer individualmente, quer em grupo.

Independentemente dos óculos que possamos usar, podemos afirmar que os paradigmas facilitam e simultaneamente condicionam a visão da realidade! Como? Facilitam, porque nos fazem ver coisas que de outro modo não veríamos; condicionam, porque focalizam a nossa atenção em determinados aspectos, dando-nos, por isso, uma visão sectorizada de uma complexidade, que é a vida e o mundo.

Resta-nos distinguir os conceitos de paradigma, teoria, modelo e método, já que, com frequência, são usados indistintamente. De facto, muitos autores no seu discurso não fazem esta distinção. Todavia, se quisermos, podemos apontar alguns aspectos diferenciadores. Paradigma será um sistema de ideias que norteia a actividade e o conhecimento científico. Teoria, um sistema de ideias que pretende proporcionar explicações de alcance universal. Modelo será um sistema de ideias de carácter mais regional, por oposição à teoria. Finalmente, método pode ter dois sentidos: um que aponta para os procedimentos de investigação; outro que aponta para a ideia de teoria, propriamente dita.

 

2 - O CONHECIMENTO DA EXTERIORIDADE E DA INTERIORIDADE: DO PARADIGMA POSITIVISTA AO PARADIGMA COMPREENSIVO.

No decurso das ciências sociais e humanas, sempre se verificou uma espécie de dicotomia entre a interioridade e a exterioridade na abordagem ao ser humano enquanto objecto de estudo. Especialmente na psicologia e na sociologia, o desejo de remeter o verdadeiro conhecimento para o interior ou para o exterior do homem nunca deixou de apoquentar os cientistas do comportamento.

Sabemos a importância que teve a filosofia na criação e no desenvolvimento quer da psicologia, quer da sociologia. Mas, por isso mesmo, porque devedoras da filosofia, psicologia e sociologia, ainda hoje têm, por vezes, alguma dificuldade dela se libertarem, o que naturalmente não pressupõe mal algum.

Com a criação do primeiro laboratório de psicologia experimental no século XIX na Alemanha, deu-se o primeiro passo para a libertação da introspecção filosófica, em favor da observação exterior e objectiva do comportamento humano. No mesmo século, o filósofo Auguste Comte haveria de criar, também ele com o desejo de se autonomizar da própria filosofia, a física social (a sociologia).

Daí para cá, ora temos propostas científicas mais identificadas com a objectividade, ora nos são feitas propostas mais conotadas com a subjectividade. Convém, antes de mais, clarificar uma situação que, por vezes, constitui equívoco. Quando se fala em objectividade e em subjectividade estamos a referir-nos não ao sujeito observador, pois nele a subjectividade esta sempre presente, mas ao sujeito observado, aquele que vai constituir parte do nosso objecto de estudo. Ou seja, não é por eu estudar a subjectividade do outro que me torno subjectivo ou a minha ciência é subjectiva. Uma ciência pode estudar objectivamente a subjectividade do outro.

Há uma outra subjectividade, num outro contexto de análise, que se refere à subjectividade do observador, enquanto ser humano, independente da ciência que ele pratica. Quer dizer, mesmo quando estou no microscópio a observar o comportamento de uma célula, a minha subjectividade interfere com a observação, e por consequência com o resultado dessa observação.

Voltando ao nosso assunto, as ciências sociais e humanas, nas quais se enquadram a psicologia e a sociologia, entre outras, têm desenvolvido o seu edifício teórico, tendo por base estes dois pilares de objectividade / subjectividade; interior / exterior; quantitativo / qualitativo; previsibilidade / aleatoriedade; simplicidade / complexidade, etc.

Se pensarmos bem, em ciências sociais e humanas, teremos: exterioridade, como sinónimo de objectividade e comportamentalismo; interioridade, como sinónimo de subjectividade e compreensão. Na psicologia podemos opor ao comportamentalismo a Psicanálise e a Abordagem Centrada na Pessoa, entre outras. Na Sociologia podemos opor ao positivismo de Comte e Durkheim a compreensão empática de Max Weber.

A primeira perspectiva é identificada como paradigma positivista, o qual se preocupa com a extensão dos fenómenos, a medição, a quantificação, a previsão, a formulação geral de leis. Este paradigma é devedor da perspectiva cartesiana das ciências. A ele estão associados conceitos como divisão, causalidade, atomismo, linearidade, etc.

A segunda perspectiva é identificada como paradigma compreensivo. Este opõe-se aos métodos usados pelo positivismo. Critica-o no sentido de que as ciências sociais e humanas não devem socorrer-se dos métodos das chamadas ciências da natureza. Consideram que os fenómenos humanos têm de ter métodos próprios, qualitativos, aprofundados, históricos e fenomenológicos. Este paradigma procurará, desta forma, contrariar o positivismo pela abordagem global dos fenómenos, evitando a separação e tentando compreendê-los no contexto em que ocorrem. Como resultado destas preocupações, podemos nelas incluir as chamadas microssociologias, que mais não são do que abordagens voltadas para os fenómenos de baixa dimensão interaccional, como é o caso dos pequenos grupos ou das relações entre os indivíduos.

 

3 - A INTERIORIDADE E O PROCESSO DE COMPREENSÃO EMPÁTICA: EM MAX WEBER E EM CARL ROGERS.

Qual o melhor método, qual o melhor paradigma? Com frequência, vemos imprudentemente algumas pessoas defenderem um ou outro paradigma como se de uma religião se tratasse. Cada um deles tem o seu valor relativo que, numas circunstâncias são adequados e noutras sêlo-ão menos. Parece-nos que devemos ter a humildade de, em primeiro lugar, conhecer cada uma das abordagens e, de seguida, procurar adequar a que melhor se ajusta aos objectivos da investigação e ao seu objecto de estudo.

Eis, então, a questão: interioridade ou exterioridade? Depende do alcance dos nossos objectivos. Qual, por exemplo, o papel da Abordagem Centrada na Pessoa, proposta pelo psicólogo Carl Rogers no estudo dos grupos e do desenvolvimento humano? Encaixamo-la na interioridade ou na exterioridade? À partida, parece-nos que deverá ser na interioridade, já que o que nos interessa nesta abordagem são, essencialmente, os sentimentos das pessoas. Mas será isto correcto, quando preconizamos que a abordagem é na Pessoa! Então, e Pessoa não é uma totalidade com interior e exterior?

Vale a pena reflectir sobre este problema, pois de contrário, caímos num reducionismo intelectual, com efeitos imprevisíveis na nossa formação. Com efeito, se a pessoa é um todo, a apreensão e a compreensão deste todo requer quadros teóricos e métodos que correspondam a essa nossa aspiração. Caso contrário, incorreremos numa espécie de paradoxotemos dois discursos diferentes sobre a mesma realidade.

Desta feita, a compreensão do todo exige de nós uma visão epistemológica holística. Isto pressupõe, naturalmente, um enquadramento não só interdisciplinar, como, diria até, transdisciplinar. Quer dizer, necessitamos de construir um novo objecto de estudo sobre a pessoa humana com base também num novo quadro teórico.

Esta exigência conduz-nos ao estudo do homem nas suas vertentes bio – psico – sócio – cultural. O que significa isto? Que tanto a Abordagem Centrada quanto a Psicoterapia Centrada, sua subsidiária, não podem, jamais, ater-se exclusivamente aos escritos de Rogers, seu fundador. Para além deles, deveremos integrar conceitos da filosofia, da antropologia, da sociologia, da psicologia, da linguística, da semiótica, da teoria dos sistemas, etc., por forma a termos um modelo refrescado e actualizado da compreensão humana.

Os fundamentalistas do rogerianismo são os piores inimigos de Rogers e do seu ideal, pois este jamais revelou indícios de fundamentalismo ou de sectarismo. Será então que podemos integrar tudo na Abordagem Centrada? De modo nenhum! Abertura do modelo não significa escancarar as portas ao desconhecido. Caso isso acontecesse teríamos uma situação de entropia por excesso de abertura.

Parece-nos prudente manter o modelo da Abordagem Centrada com a abertura suficiente e necessária ao mundo das ideias, tal como Rogers o fez, indo beber a várias fontes científicas e filosóficas do seu tempo, sem no entanto perder de vista as finalidades e a identidade do mesmo. Como se faz isto? Mantendo uma vigilância epistemológica sobre a própria Abordagem Centrada na Pessoa, para usar a expressão de Pierre Bourdieu. E o que é exactamente isso? Bom, responderemos que é exactamente aquilo que estamos a fazer neste exacto momento da escrita deste texto e da leitura do mesmo! Fácil, não é? Mas não chega, é necessária leitura e crítica dos textos, como necessária é a investigação no âmbito da Abordagem Centrada e da Psicoterapia Centrada.

Agora que podemos ser um pouco mais tolerantes e não pensar sectariamente, julgando ter sido Rogers quem inventou o conceito de compreensão e de empatia, podemos dizer que ambos os conceitos se materializaram na psicologia de Carl Rogers e na sociologia de Max Weber. Antes de Rogers já Weber tinha construído a sua sociologia compreensiva e empática, e antes deste já o filósofo alemão Dilthey tinha preconizado os mesmos.

Então onde se encontra a originalidade de Carl Rogers? Bom, há um princípio popular que diz estar já tudo inventado. Ou seja, determinadas palavras e determinados raciocínios já existem, o segredo está na forma como os empregamos. O tijolo e a areia já existem há muito tempo e toda a gente os emprega, mas apesar de tudo é sempre possível construir casas diferentes a partir da mesma matéria prima.

É neste sentido que, no âmbito da Abordagem Centrada na Pessoa, é possível falarmos de comunicação, de teoria dos sistemas, de cibernética, de fenomenologia e de existencialismo. Em nada desconfigura a Abordagem Centrada. O receio poderá residir naqueles que, por desconhecimento ou impreparação, dizem ser estas matérias alheias ao modelo.

 

4 - AS CORRENTES HUMANISTAS: FENOMENOLOGIA E EXISTENCIALISMO COMO PARADIGMAS E MÉTODOS DE ANÁLISE HUMANA E SOCIAL.

As correntes humanistas são várias, e as ciências sociais e humanas delas muito têm beneficiado, ao nível da pedagogia, do trabalho, da família, das organizações, etc. Mas não só, a própria psicologia e a sociologia têm reflectido de forma enfática esta influência.

No século XX múltiplas foram as abordagens e as correntes que procuraram influenciar as ciências sociais e humanas, chamando a atenção para a importância do homem na construção da sociedade e como causa e fim último do seu desenvolvimento. Estamos a pensar no marxismo, no estruturalismo, no interaccionismo simbólico, no funcionalismo, no estruturo-funcionalismo, no existencialismo e na fenomenologia, entre outros, como tentativas de devolver ao homem o lugar que ele tem na condução da sua própria vida.

Passemos agora a definições, genéricas, do existencialismo e da fenomenologia. Pode dizer-se que o existencialismo congrega os filósofos da existência. Todavia, no interior do existencialismo podemos constatar diferentes correntes. Assim, temos a filosofia existencial de Jaspers, a filosofia existencial de Heidegger e o existencialismo de Sartre.

Tradicionalmente, distinguem-se dois ramos neste movimento filosófico: o cristão e o ateu. O primeiro é representado por Jaspers, Marcel, Berdieff e por Kierkgaard. O segundo é representado por Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty.

Os historiadores têm dificuldade em situar e determinar a origem da filosofia existencialista. De facto, desde sempre, os pensadores dedicaram a sua atenção ao problema da existência humana, começando com Sócrates, os Estóicos, Santo Agostinho e São Bernardo, passando por Pascal e Maine de Biran, até àquele que é considerado o iniciador mais directo da actual corrente – Kierkeggard.

Os filósofos contemporâneos do existencialismo integram os diferentes contributos de outros movimentos e influências, como sejam a hegeliana, a husserliana e a nietzscheana.

Classicamente, faz-se na filosofia uma distinção entre a essência e a existência do ente. A essência do ente diz respeito à sua natureza, o que ele é, enquanto a sua existência diz respeito ao facto de o ente ser - a sua posição absoluta na realidade.

Na filosofia clássica encontramos a ideia de uma essência anterior às possibilidades da existência, com base no pressuposto de que a existência só pode ser a existência de uma essência que a precede. Pelo contrário, as filosofias da existência afirmam que esta precede a essência: eu sou alguma coisa unicamente porque sou (no mundo).

Nesta perspectiva, a existência é a criação, ou a modificação, da essência: apenas o homem existe em rigor. O modo de ser do homem é a sua existência e não a sua essência. Segundo Heidegger, a existência é uma perpétua ultrapassagem à frente de si, ou, segundo Merleau-Ponty, é um movimento de transcendência.

De acordo com este ponto de vista, é devido a esta ultrapassagem em direcção às possibilidades da existência, em direcção aos fins do ente, que se dão as determinações ulteriores. A existência é uma escolha, que deve ser livre, sob pena de deixar o plano da existência verdadeira para cair no ser. A própria liberdade não é encarada como um dado; o ente deve escolher a sua liberdade. A vida humana será para Heidegger inautêntica e o homem para Satre um indolente, quando a sua liberdade não é assumida em plenitude.

Edmund Husserl apresentou o método fenomenológico para todas as ciências, como uma proposta de base liberta de pressuposições à partida. Considera ingénuas as propostas do positivismo, face às certezas do seu discurso.

É suposto ser a palavra fenomenologia mais antiga do que o próprio movimento a que Husserl deu origem. Para este autor, a racionalidade reside na consciência doadora originária. Desta, deriva a primeira e fundamental regra do método fenomenológico. Quer dizer, o cientista deve centrar-se nas próprias coisas, entendendo-se por coisas o dado em si, o fenómeno, ou seja, aquilo que é tomado pela consciência.

À fenomenologia não interessa o que está por detrás do fenómeno, aquilo que é desconhecido. A ela interessa-lhe o dado, independentemente de este ser uma realidade ou uma aparência. O que interessa é isso que está aí, o que nos afecta.

Neste sentido, o método fenomenológico não é dedutivo (não parte do geral para o particular), nem empírico. É um método que consiste em mostrar o que é dado e em esclarecê-lo, sem recorrer a leis, nem fazer deduções a partir de determinados princípios – considera apenas aquilo que é imediatamente dado à consciência.

Dado no entanto que a adopção do método fenomenológico implica uma mudança radical na investigação, este não tem sido muito empregue na pesquisa social, como é o caso da sociologia e da psicologia social.

No entanto, a adopção de uma postura fenomenológica pode ser enriquecedora para o pesquisador, sobretudo na procura da dimensão essencial da pesquisa, evitando desta forma a segmentação e a atomização dos dados. Igualmente, uma postura fenomenológica poderá ser útil na formulação dos problemas de investigação, no levantamento de hipóteses e no estabelecimento do quadro conceptual.

Ao longo deste livro, veremos como é possível abordar as relações grupais e o desenvolvimento humano socorrendo-nos tanto da fenomenologia, como do existencialismo, da Abordagem Centrada na Pessoa, da Teoria dos Sistemas e da Sociologia. De facto, qualquer uma delas procura ter das relações humanas e do homem uma visão integrada, sem que o passado ou as deduções lógicas sejam absolutamente necessárias para explicar o presente da acção humana.


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