A REPRESENTAÇÃO DO GESTOR
 

E a Inversão da Metáfora

 

Fernando Nogueira Dias

 

Começamos por fazer referência a uma possível contradição das expressões deste título: Representação e Gestor. Atentando, contudo, para o tema numa perspectiva sociológica ver-se-á que a contradição deixa de fazer sentido, visto que a função gestão pressupõe, à semelhança de qualquer outra função, o desempenho de determinados papéis.

Por consequência, ser gestor (desempenhar a função gestão), para além da dimensão estritamente operativa, significa sociologicamente desempenhar um papel, numa determinada estrutura social, seja ela instituição ou organização.

E, uma vez que à sociologia lhe é caro o conceito de papel social (conjunto de comportamentos esperados, tendo em conta o status do indivíduo na estrutura social) enquadremo-lo num contexto representacional mais alargado.

Assim, para além do papel social, é necessário um actor que o desempenhe. Mas, tanto o actor quanto o papel têm um espaço próprio no qual devem situar-se. Ora, o espaço próprio é o espaço destinado à representação, que se situa entre os bastidores e o público (os espectadores).

O espaço representacional é um espaço envolto numa mística, e, por esse facto, não deve ser quebrado o tabu - não deve ser conhecido; salvo as vezes que, estrategicamente, o responsável pela representação entenda ser necessário fazê-lo. Se assim for, os actores poderão descer até junto dos espectadores, ou estes poderão subir ao palco. Ou, ainda, no final das sessões, alguns espectadores poderão até ser conduzidos à intimidade dos bastidores.

Salvo, no entanto, as excepções acima referidas, não deverá haver invasão sistemática dos espaços, o que, a acontecer, corre-se o risco de descaracterizar a representação e, por consequência, levar o público à desmobilização, ao abandono da sala.

Descrita a metáfora teatral, e aplicando-a ao gestor, fácil é entender que este terá toda a conveniência em gerir bem os espaços da sua esfera de acção. Neste contexto, não espera o público que o gestor represente o seu papel no espaço do público, nem o gestor espera que o público (os seus colaboradores) ocupe o espaço de representação do gestor. Muito menos se espera que o público, no decorrer da representação, faça uma visita aos bastidores, a não ser no final da peça, pelas razões já apontadas.

Naturalmente que, como foi já afirmado, pode estrategicamente ser necessário fazer um cruzamento de espaços para, por exemplo, levar o público a compreender que ele é um elemento fundamental para o bom sucesso da representação. Contudo, é necessário e prudente não recorrer insistentemente a esta estratégia, pois o público pode vir a sentir-se perdido, por não saber o papel que tem, realmente, de desempenhar e qual o local mais adequado para a sua representação.

É que, na ânsia, por vezes, de o gestor se fazer aceitar pelos espectadores cai na tentação de descer o degrau democrático para, em conjunto, desempenhar o seu papel com o público na plateia. Porém, se persistir esta estratégia de promiscuidade espacial, pese embora o impacto inicial agradável da mesma, o gestor corre o risco de não poder voltar ao palco, pois encontra-se demasiadamente comprometido com o público para poder reassumir o seu papel.

De facto, os espaços sociais não são inócuos; têm significados simbólicos que dão à representação uma dimensão que só o ser humano percebe e sente. Por isso, ao trocar de papel, através da permuta de espaços, o gestor corre o risco de criar e alimentar uma promiscuidade funcional e espacial que, posteriormente, lhe pode ser difícil controlar.

Não quer isto dizer que o papel deva ser rigidamente desempenhado numa zona de representação excessivamente limitada; o actor tem um raio de acção que lhe permite movimentar-se sem grandes limitações. Significa, antes, que o actor não deve confundir o seu papel com o papel dos espectadores e controlar razoavelmente o seu espaço representacional. Caso contrário, o gestor deixa de ser o actor para passar a ser espectador (ou mirone!).

Uma definição clara do papel do actor, bem como a correcta gestão do seu espaço, trazem ao gestor o sentimento de gratificação, e aos espectadores a segurança de que as suas expectativas não serão goradas.

Ao Director da peça (ou à Organização) advirá a certeza de que os espectadores não correrão desiludidos em debandada pela sala fora, devido à inversão dos papéis.

Livremo-nos, pois, de tamanha inversão metafórica!
 

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